Aqura

Quarta-Feira de Cinzas - Por Santo Afonso Maria de Ligório

A lembraça da morte e o jejum quaresmal

Os insensatos que não crêem na vida futura e têm as verdades eternas por fábulas, estimulam-se, com a lembrança da morte, a levar vida folgada e a gozarem.Comedamus et bibamus; cras enim moriemur (Is 22, 13) – "Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". De maneira bem diferente, porém, diz Santo Agostinho, deve proceder o cristão, que pela fé sabe que a alma sobrevive ao corpo, e que depois da morte deste, terá de dar contas rigorosíssimas de tudo quanto tiver feito. – O cristão, que se lembra que em breve deverá deixar o mundo, cuidará da sua eternidade e procurará aplacar a justiça divina com penitências e orações. É por isso exatamente que a Igreja, depois de nos ter posto as cinzas sobre a cabeça, ordena a seus ministros que notifiquem aos fiéis o jejum quaresmal: Canite tuba in Sion: sanctificate ieiunium (Jl 2, 15) – ‘Fazei soar a trombeta em Sião, santificai o jejum’.”

Conformemo-nos, portanto, com as intenções de nossa boa Mãe; e como ela mesma o ordena, sejamos no santo tempo da Quaresma mais sóbrios em palavras, na comida, na bebida, no sono, nos divertimentos; e, o que é mais necessário, afastemo-nos mais de toda a culpa por meio de uma vida recolhida e consagrada à oração, porquanto, no dizer de São Leão, "sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniqüidade".

Ó meu amabilíssimo Redentor, consenti que eu una à minha salutar abstinência com a que Vós com tanto rigor por mim quisestes observar no deserto. Consenti também que nesta união eu a ofereça a vosso Pai Divino, como protestação de minha obediência à Igreja, em desconto de meus pecados, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das almas santas do purgatório. Tenho intenção de renovar esta oferta todos os dias da Quaresma. Vós, porém, ó Senhor, concedei-me a graça de começar este solene jejum com devida piedade e de continuá-lo com devoção constante, afim de que, chegada a Páscoa, depois de ter ressurgido convosco para a vida da graça, seja digno se ressuscitar também para a vida da glória. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

 

Fonte: Livro -Meditações I, Santo Afonso Maria de Ligório, p. 289-290.