Aqura

O Pensamento da Eternidade

Cogitavi dies antiquos, et annos aeternos in mente habui – “Pensei nos dias antigos, e tive na mente os anos eternos” (Sl 76, 6)
 
Sumário. Feliz de quem vive tendo sempre em mira a eternidade e pensa que em breve o paraíso ou o inferno será a morada de sua alma! Este pensamento infundiu a milhões de mártires a coragem para darem a sua vida por Jesus Cristo; fez tantos jovens, mesmo príncipes e reis, encerrarem-se nos claustros. Quanto mais eficaz não será, pois, para nos desprender dos miseráveis bens da terra e fazer-nos carregar com paciência as cruzes que Deus nos envia? Quem pensa na eternidade e não se converte a Deus, perdeu ou o juízo ou a fé.
 
I. O pensamento da eternidade é chamado por Santo Agostinho o grande pensamento: Magna cogitatio. Este pensamento fez com que todos os tesouros e grandezas da terra se afigurassem aos santos como que palhas, lodo, fumo e monturo. Este pensamento inspirou tantos anacoretas a retirarem-se para desertos e grutas, tantos jovens nobres e mesmo reis e príncipes reinantes a encerrarem-se nos claustros. Este pensamento deu a tantos mártires coragem para sofrer os cavaletes, as unhas de ferro, as grelhas em brasa e a morte pelo fogo.
 
Não, não é para esta terra que fomos criados; o fim para o qual Deus nos pôs neste mundo, é que pelas nossas boas obras mereçamos possuir a vida eterna: Finem vero, vitam aeternam (1) — “E por fim a vida eterna”. Pelo que Santo Euquério disse que o único negócio em que devemos cuidar na vida presente , é a eternidade. Se assegurarmos este negócio, seremos felizes para sempre; se o errarmos, seremos para sempre infelizes.
 
Feliz de quem vive tendo sempre em mira a eternidade, pela fé viva que dentro em breve tem de morrer e entrar na eternidade! Iustus ex fide vivit (2) — “O justo vive pela fé”. A fé faz o justo viver na graça de Deus, dá vida à alma desprendendo-a dos afetos terrenos, e lembrando-lhe os bens eternos que Deus promete aos que O amam. — Dizia Santa Teresa que todos os pecados provêem da falta de fé. Pelo que, a fim de vencermos as paixões e as tentações, é mister que frequentemente avivemos a nossa fé, dizendo: Credo vitam aeternam — “Creio na vida eterna”. Creio que depois desta vida, que em breve acabará para mim, há a vida eterna, ou cheia de gozos ou cheia de sofrimentos, uma das quais me tocará segundo os meus méritos ou deméritos. Costumava por isso Santo Agostinho dizer que o que crê na eternidade e não se converte a Deus, perdeu o juízo ou a fé.
 
II. “Ai dos pecadores”, exclama São Cesário, “ai daqueles que entram na eternidade sem a terem conhecido, por não terem querido pensar nela! Ó infelizes! Para eles a porta do inferno se abrirá para os deixar entrar, não para os deixar sair.” Santa Teresa repetia às suas religiosas: Minhas filhas, uma alma, uma eternidade! Queria dizer: Minhas filhas, temos uma só alma; perdida esta, tudo está perdido; e perdida esta uma vez, está perdida para sempre. Numa palavra, de nosso último suspiro na hora da morte dependerá, se seremos felizes para sempre, ou para sempre em desespero.
 
Oremos: Roguemos, pois, ao Senhor, que nos aumente a fé: Domine, adauge fidem (3) — “Senhor, aumentai a minha fé”, porquanto, se não estivermos firmes na fé, tornar-nos-emos piores do que um Lutero ou um Calvino. Ao contrário, um vivo pensamento da eternidade que nos espera, pode fazer-nos santos. — Quando tivermos que sofrer alguma enfermidade ou perseguição, lembremo-nos do inferno, que temos merecido pelos nossos pecados. Desta maneira toda a cruz se nos afigurará leve, e daremos graças ao Senhor dizendo: Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti (4) — “Misericórdias são do Senhor o não termos sido consumidos”. Digamos também com Davi: Se o Senhor não se tivesse compadecido de mim, estaria eu no inferno desde o dia em que O ofendi pelo pecado mortal (5). Eu já estava pedido, mas Vós, ó Deus de misericórdia, estendestes para mim a vossa mão e me tirastes do inferno: Tu autem eruisti animam meam, ut non periret (6) — “Tu livraste a minha alma para ela não perecer”.
 
Meu Deus, Vós sabeis quantas vezes tenho merecido o inferno; mas apesar disso, quereis que tenha confiança, e quero esperar em Vós. Os meus pecados me atemorizam, mas a vossa morte e a promessa de perdoardes a quem se arrepende inspiram-me confiança. Nos tempos passados Vos desprezei, mas agora amo-Vos sobre todas as coisas e detesto mais que todos os outros males, o ter-Vos ofendido. Meu Jesus, tende piedade de mim; Maria, Mãe de Deus, intercedei por mim. “Ó Deus, que com a luz da vossa verdade iluminais aos que erram, para que possam tornar ao caminho da justiça, concedei a todos os cristãos, que rejeitem quanto se opõe à santidade deste nome, e sigam quanto com ele se conforma” (7).
 
Referências:
(1) Rm 6, 22
(2) Gl 3, 11
(3) Lc 17, 5
(4) Lm 3, 22
(5) Sl 93, 17
(6) Is 38, 17
(7) Or. Dom. curr.
 
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 54-57)